História das Mentalidades
Sobre o curso
A história que se aprende na escola é quase sempre uma sequência de datas, guerras e decisões políticas — um esqueleto útil, mas que pouco diz sobre como as pessoas de cada época viam a si mesmas, organizavam o cosmos, amavam e temiam. Este curso propõe outro caminho: estudar as mentalidades, isto é, aquele conjunto de crenças, imagens e disposições que todos os membros de uma sociedade partilham, muitas vezes sem o perceber.
O professor guia o aluno por um arco que vai do Egito antigo até o século XX, passando pelos mitos gregos, pela catedral gótica, pela Divina Comédia, pelo humanismo renascentista, pelas navegações ibéricas, pelo romantismo e pela mentalidade brasileira expressa em gravuras coloniais e em música caipira. Em cada escala, o mesmo método: ler uma obra de arte, uma lenda ou um costume popular como documento histórico — porque a arte diz o que os registros políticos calam.
A abordagem é explicitamente analógica e interpretativa. O professor assume, com clareza, que a história é mais arte do que ciência, e que a imprecisão poética de um vitral medieval revela a alma de uma época com uma exatidão que nenhuma cronologia consegue igualar. O curso é rigoroso, mas não acadêmico no sentido fechado da palavra: é pensado para quem quer entender o passado a partir de dentro.
Para quem é este curso
- Estudantes e professores de história que querem ir além da narrativa político-factual.
- Leitores curiosos que já se perguntaram por que a Divina Comédia ou as catedrais góticas existem.
- Pais e educadores que buscam apresentar a história de forma viva e culturalmente enraizada.
- Brasileiros interessados em compreender de onde vêm os costumes, a religiosidade e o modo de ser do povo.
- Pessoas que gostam de arte, mito e literatura e querem entender o contexto mental que os produziu.
O que você vai aprender
- Distinguir a história das mentalidades da história política e explicar por que as duas se complementam.
- Ler obras de arte, lendas e costumes populares como fontes históricas primárias.
- Identificar o pensamento analógico medieval e reconhecê-lo em arquitetura, literatura e devoção popular.
- Narrar e interpretar o mito de origem egípcio e extrair dele traços da cosmovisão faraônica.
- Analisar os mitos de Teseu e Édipo como espelhos da mentalidade grega sobre herói, destino e cidade.
- Descrever as três fases do gótico e interpretar o simbolismo estrutural da catedral medieval.
- Explicar o imaginário medieval através da Divina Comédia, incluindo a hierarquia dos pecados e a geografia do além.
- Caracterizar o humanismo renascentista e ler um quadro de Botticelli como alegoria filosófica em camadas.
- Compreender a motivação religiosa e épica das Grandes Navegações a partir da Mensagem de Fernando Pessoa.
- Reconhecer traços da mentalidade brasileira na música caipira, nas gravuras de Debret e na religiosidade popular.
Por que isso importa
Compreender como as pessoas de outras épocas organizavam o mundo — o que consideravam sagrado, justo, belo ou ameaçador — não é um exercício de erudição. É uma forma de entender por que certas instituições, costumes e formas de sentir persistem até hoje, muitas vezes sem que seus herdeiros saibam de onde vêm.
O brasileiro que estranha a devoção às promessas, o caipira que "curte a tristeza" nas modas, o estudante que não entende por que a catedral de Chartres foi construída ao longo de dois séculos — todos estão diante de questões de mentalidade. Este curso oferece instrumentos para ler esses sinais: não para julgar o passado pelos padrões do presente, mas para ampliar o ângulo pelo qual se vê o próprio tempo em que se vive.
Currículo do curso
- Apresenta o campo como alternativa à história positivista, discute a história como arte e introduz o conceito de 'resíduo psicológico estável' de Debye e o 'não sei o quê' de Jacques Le Goff.
- Defende o mito como fonte privilegiada da história das mentalidades e contrapõe o pensamento analógico ao raciocínio lógico-linear, com exemplos medievais e populares.
- Aprofunda o pensamento analógico com exemplos de São Tomás Aquino, São Bernardo de Claraval e Dante, e discute a ausência de fronteira entre matéria e espírito no universo medieval.
- Narra a cosmogonia egípcia: o ovo primordial, Rá, a tríade Nut-Geb-Shu e a astúcia de Ísis para arrancar o nome secreto do avô, fundando o poder divino no Egito.
- Continua o mito: Osíris e Ísis descem à terra, ensinam agricultura e tecelagem aos homens, e Set arma a cilada do sarcófago para destruir o irmão.
- Conclui o mito com a viagem de Ísis pela Fenícia, o resgate do sarcófago, a ressurreição parcial de Osíris, o nascimento de Hórus e a fundação do faraonato como teocracia.
- Narra a origem de Teseu em Trezena, sua educação com o centauro Quíron, a descoberta da espada paterna e o percurso terrestre até Atenas derrotando seis monstros.
- Conta a história do Minotauro — a ira de Posídon, o labirinto de Dédalo, a missão de Teseu em Creta, o auxílio de Ariadne e o regresso trágico que causa a morte do rei Egeu.
- Interpreta o mito à luz da mentalidade grega: o papel do herói, a sacralidade do rei, os deuses territoriais, a família como unidade religiosa e o politeísmo como universo de negociações constantes.
- Apresenta a Legenda Áurea como fonte historiográfica e comenta dois contos — o devedor de São Nicolau e o peregrino de Santo André — mostrando a porosidade medieval entre céu e terra.
- Analisa os contos de São Félix, Cromácio e São Sebastião, e o caso da esmola de Pedro, explorando a intervenção divina como dado ordinário da vida medieval.
- Narra a lenda do Frei Ave Maria e comenta o Milagre de Calanda, documentado por Vittorio Messori, como exemplos da devoção popular que antecede e alimenta a teologia oficial.
- Introduz Dante Alighieri, a história de amor com Beatriz e a estrutura cosmológica da obra; narra o ingresso no Inferno, os indiferentes e os círculos da luxúria, gula, avareza e ira.
- Percorre os círculos inferiores do Inferno — hereges, violentos, fraudulentos e traidores — e discute o critério medieval de gravidade dos pecados, confrontando-o com o critério contemporâneo.
- Narra o Purgatório e o Paraíso, a aparição de Beatriz como símbolo da Sabedoria, a referência ao Cruzeiro do Sul e a oração final de São Bernardo, concluindo a visão dantesca do cosmos medieval.
- Apresenta a origem do nome 'gótico', situa o estilo na sequência egípcio-grego-romano-românico e explica as três inovações estruturais — arco cruzado, arco-botante e ogiva — como busca da luz.
- Descreve as três fases do gótico — primitivo, radiante e flamejante — comparando rosáceas, ogivas, colunas em feixe e estátuas, e discute o risco estético do excesso no gótico flamejante.
- Interpreta o simbolismo geral da catedral: planta em cruz latina, proporção áurea de Notre-Dame, Galeria dos Reis, o Juízo Final na fachada, a cripta e a hierarquia das partes arquitetônicas.
- Comenta as gárgulas, o labirinto penitencial, o Caminho de Santiago, a pia batismal na entrada, os sinos e seus toques litúrgicos, e encerra com a lenda da catedral de Ulm.
- Analisa o vitral como teologia para analfabetos, símbolo da humildade, símbolo mariano e fonte histórica das profissões medievais; interpreta a rosácea como imagem da sociedade convergindo para Cristo.
- Lê as colunas góticas em feixe da Igreja da Imaculada Conceição de Madri como metáfora da educação e da santidade, concluindo o ciclo sobre o simbolismo gótico.
- Caracteriza o humanismo renascentista: visão laical e antropocêntrica, a virtù, o amor ao corpo humano, a admiração pela Antiguidade e o código de obras em múltiplas camadas de sentido.
- Introduz A Primavera de Botticelli e o método interpretativo de Edgar Wind, identificando os dois tipos de amor cego — carnal e contemplativo — e as figuras de Flora, Clóris e Zéfiro.
- Conclui a leitura de A Primavera com a análise das Três Graças, de Mercúrio e do movimento circular oculto no quadro, revelando a tese humanista sobre o amor que desce e retorna ao transcendente.
- Refuta a tese marxista da motivação exclusivamente econômica das navegações, citando Colombo, Caminha, D. João III, Sérgio Buarque de Holanda e Janice Teodoro.
- Analisa o livro Mensagem de Fernando Pessoa: a epígrafe, as cinco condições do leitor simbólico, a imagem da Europa com rosto de Portugal e os poemas Mar Português e Monstrengo.
- Comenta o capítulo 'O Semeador e o Ladrilhador' de Sérgio Buarque de Holanda, contrapondo a mentalidade portuguesa à espanhola a partir das categorias de Dom Quixote e Sancho Pança.
- Define o romantismo como filosofia da modernidade, distingue-o do classicismo, caracteriza o artista como 'bardo inspirado' e contrasta o minueto com a valsa como emblemas das duas mentalidades.
- Apresenta o Fausto de Goethe como arquétipo da modernidade, a partir de Marshall Berman, e narra a primeira parte da peça: o trato com Mefistófeles e o encontro com Gretchen.
- Conclui a análise do Fausto — a queda de Gretchen, a destruição dos velhinhos, os dois finais possíveis — e conecta a tentação da modernidade ao êxodo rural brasileiro e ao filme Bye Bye Brasil.
- Retoma a lógica da droga e da modernidade como promessa de excitação infinita, e discute o aumento dos suicídios, a montanha-russa como metáfora e Orfeu Estático na Metrópole de Nicolau Sevcenko.
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